Esta é uma peça de teatro infantil que eu escrevi há muito tempo atrás, para os meus três filhos. A eles, juntou-se o nosso vizinho, Luís Silva. Inês era bebé. Lembram-se da peça, meninos? Lembram-se dos ensaios? Este blog é-vos dedicado.

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Domingo, 6 de Outubro de 2013

Vai-e embora!

(O local onde se passam as cenas é uma sala mobilada com uma mesa, encostada ao cenário onde está pintada uma janela atrás da qual se divisam os prédios em frente. À esquerda do palco está uma poltrona, cujo espaldar se encontra de costas para o público, onde supostamente se encontra o indivíduo à qual são dirigidas as falas! Final de um relacionamento de vários anos de duração; depois de muitos problemas, peripécias… o fim! A amante não pode mais. Está farta, triste e revoltada!)

Cena I

Manuela – (de camisa de noite, olhando para o relógio) Não suporto mais isto! Estou farta! AAAhhhhh… (elevando os braços e fechando os punhos) Que raiva tenho de mim mesma! É sempre a mesma coisa! Tenho de ganhar coragem senão corro o risco de passar o resto do meu tempo à espera! Raios! Já ensaiei esta cena mais de mil vezes e, ainda assim, não consigo! Deixo-me sempre levar na conversa! Vejo-o entrar pela porta dentro, cheio de saudades, com todo aquele carinho que o caracteriza e acabo sempre por me render! Quando é que eu vou ganhar força para pôr cobro a tudo isto? Às vezes julgo que nunca vou conseguir! E, no entanto, eu quero muito! É mesmo uma ideia que me persegue há já alguns meses. Só que a coragem falta-me na hora H! Não pode ser! Não pode ser! Vai ser hoje! Tem de ser hoje! Vou sentá-lo naquele cadeirão e obrigá-lo a ouvir tudo quanto tenho a dizer! Ai, se vou! E não posso falhar! Estou tão cansada! A relação começou bem para terminar numa farsa! E se começou bem! Mas ele não cumpriu as promessas mais sagradas. Revelou ser mais um desses trapalhões que andam a atrapalhar a vida dos outros em benefício próprio! Tenho de pensar em mim! A vida está a passar por mim à velocidade de um comboio e eu limito-me a ficar sentada na estação a vê-lo passar! Como me desleixei com a minha vida! Deixei passar oportunidades que, talvez, não voltem! E como sou burra! Ainda este verão, poderia ter dado uma volta à minha vida! E o que fiz? Nada! Rigorosamente, nada! Não consegui tomar as rédeas da minha vida! Como o amor pode ser traiçoeiro! Gostamos de uma pessoa e esta só nos traz problemas com a sua indecisão cobarde! E quando encontro outra numas férias rendidas à solidão, o que faço? Nada! Volto para a mesma casa, à espera do mesmo homem que não arranja espaço na sua vida para mim! AAAHHHHHHH (grita enraivecida com as mãos e a cabeça levantada para o tecto) Que desperdício! (baixa os braços e olha o público) Houve uma altura em que ele preenchia a preenchia mas, agora, isso já não acontece. Algo morreu dentro de mim! Algo foi morrendo dentro de mim, pós estes anos todos! Tanta mentira e tanta decepção! (bate com fúria no peito) Tenho um buraco tão negro, tão grande e tão fundo dentro de mim que já não aguento! Sinto-me tão cansada de lutar que, por vezes, apetece-me abandonar tudo! Até esta cidade pequena onde habito (e onde ele habita) e que mais parece uma pequena aldeia cheia de mexericos e conversas banais de pessoas que parecem reger-se pelo código da moralidade! (ri-se cheia de escárnio) Às vezes, parecem mesmo ser donas desse código! Homens e mulheres pomposos, com o armário cheio de esqueletos, mas com uma imagem perfeita! Como em tudo, são essas que mais se atiram às outras pessoas para lhes apontar os defeitos e são aquelas que, bem vistas as coisas, se deveriam calar e deixar os outros tranquilos! Mas não, são as mais aguerridas! Lá diz o ditado “A melhor defesa é o ataque!” É precisamente o que se passa nesta cidade onde todos parecem o que não são! Bem, não todos! Mas quando as mexeriqueiras falam os outros todos calam-se com medo de discordar! Ou talvez saibam que não vale a pena dizer seja o que for. A mediocridade não evolui! Estas pessoas estão bem instaladas na vida encostadas a um exército de ajudantes familiares que os apoiam e defendem pelo que podem estar descansadas e reunir-se nos cafés a falarem da vida deste e daquela! É precisamente nisto que ele se tornou! Uma pessoa medíocre! Fala sem a intenção de realizar seja o que for, só mesmo para me calar! Vendo bem as coisas, ele sempre fez isto! Já passaram tantos anos! (Pausa. Toca a cara e o pescoço com ambas as mãos como se se acariciasse) Estou tão cansada das mentiras! Depois, há outro aspecto bastante importante mas que ele, depois deste tempo todo ainda não assimilou! Detesto a mentira e não consigo perdoar uma que seja! Por mais justificações que arranjem para ela! Para mim, uma mentira é como uma traição! E já enfrentei tantas dele. Querendo acreditar que pudesse mudar. Que pudesse finalmente lutar por nós! Mas não! A farsa continua! À vista dos outros mal nos conhecemos, quando estamos sós é um namorado apaixonadíssimo! Para mim não dá! Tantas desculpas para prolongar esta relação! Nem acredito que aguentei tanto! Uma relação tão promissora acaba de encontrar o seu fim! Tantas desculpas! Os filhos que estavam em plena adolescência e poderiam enveredar pelo caminho da droga! Que conhecia muitos jovens mergulhados nesse inferno! Acreditei! Afinal, também não gostaria de que tal acontecesse a um filho meu ou que acontecesse algo parecido aos garotos! Nunca conseguiria ser feliz sabendo que algo de mau tivesse acontecido aos miúdos! Que grande desculpa! Uma desculpa que durou quinze anos! Agora os filhos estão casados e a desculpa é outra! Já percebi, finalmente qual é o meu papel no meio desta história toda! E das duas uma: ou continuo esta farsa e acomodo-me à situação ou largo tudo e começo uma vida nova! Esta última hipótese fascina-me. Parece-me mesmo a única via para a minha felicidade! Tenho de conversar com ele dando-lhe a ideia de que está mesmo (sublinha com força esta palavra) tudo terminado! Que já não tem mais hipóteses. Que finalmente descobri ao pessoa que ele é e que me cansei! Nem mesmo fica a amizade. Não depois de uma relação como a nossa! Não há hipótese! (Faz uma pausa enquanto caminha de um lado para o outro) Já estou mesmo a ver a cena! Começa logo a desconfiar que apareceu alguém na minha vida e que estou com a cabeça no ar! Como se ele a tivesse assente em cima do pescoço! Parece um garoto crescido! Não quero isso! Quero um homem. Tivemos momentos bons, não nego! Como em qualquer relação. Mas a vida não é só feita de momentos bons é toda uma história que se constrói a dois! Depois, ele não estará muito longe da realidade! Conheci alguém este verão que me fez abrir os olhos e encarar a minha verdadeira situação! Tudo verdade! Tenho de admitir! Por muito que me custasse, tudo quanto me disse era verdade! E como adivinhou também, eu já o sabia só tinha medo de o admitir para mim mesma. Foram quinze anos desperdiçados. Comecei por amá-lo verdadeiramente ou nunca aceitaria esta situação durante tantos anos! Foi este sentimento que eu cria ser verdadeiro da parte dele que me manteve presa a estas paredes, sempre à espera! Sempre em segundo plano! Todos os encontros eram marcados em função da sua agenda profissional e familiar! Eu ficava sentada até tarde, muitas vezes, sem saber nada! Como é que resisti? Não… (Pausa. Abana a cabeça) Mas ganhei forças! Meu Deus, como ganhei forças! Já não pareço a mesma mulher! Encontrar as pessoas certas na nossa vida pode ser uma verdadeira bênção! Pelo menos para mim foi! (Pausa. Coloca as mãos ao lado da cabeça deixando-as descair lentamente) Mas continua a não ser fácil! Nunca conheci outra vida para além desta! Às vezes, um grande medo invade-me como se tivesse receio de caminhar sozinha na vida. E, no entanto, estive toda a minha vida sozinha! Sempre resolvi os meus problemas sozinha. Nunca pude recorrer a ele! Nunca recorri a ele! Nunca quis também! Sou demasiado orgulhosa para tal! E cansei-me! Espero que ele venha! (volta olhar para o relógio) Atrasado como sempre! Nem sei mesmo se vem! É sempre a mesma coisa! Espero muito que venha pois quero acabar hoje com tudo. E deixar bem claro que não há hipótese de reconciliação alguma! Que é mesmo definitivo! (Um som de mensagem no telemóvel. Corre para a mesa onde se encontra o telemóvel) Não quero crer! Deve ser ele! O cobardola deve estar a adivinhar chuva! Vai chegar atrasado! Está numa reunião de última hora! Não vai durar muito? Espero bem que não ou termino tudo pelo telemóvel. Mas não dá. Tem de ser frente a frente. Ele tem de sentir (faz força nesta palavra) que está mesmo terminado! Parece que tem um sexto sentido! Sempre que eu me chateava ele parecia adivinhar e entrava logo na defensiva! Que brutais discussões nós tínhamos! Para acabarmos invariavelmente na cama! É o que vai acontecer se ele desconfiar da minha intenção. Afinal, já há algum tempo que me dizia que não parecia a mesma. E sentia-se desconfortável com a situação! Poderia mesmo afirmar que tinha medo! Medo do que eu pudesse dizer ou fazer! Não se pode dizer que seja má pessoa, mas não é de confiança! Ainda me lembro daquela vez que descobri a namorada na internet! É engraçada a internet! É um mundo onde toda a gente se descobre facilmente! Para ser mais exacta, foi ela que me descobriu a mim! O que é engraçado, é que descobrimos o fantoche que ele é e ficámos amigas! É pena ela encontrar-se tão longe! De certeza que nos tornaríamos ainda mais próximas! Ehehehehe… (ri-se de forma triste) Se não fosse uma situação tão triste, até dava para rir! É o que eu digo, é daquelas pessoas que não pode ter muitos tempos livres, só faz asneiras! Mas esta foi só uma pequena razão entre muitas grandes razões que me levaram ao esgotamento! E ele nada fez! Ignorou-me completamente. Estava doente física e psicologicamente! Esgotada! E ele, só pensava na imagem! Que grande filho da mãe! Tinha um medo enorme de ser descoberto. Como é que se explicaria perante a família, os amigos e os colegas de trabalho? Metia nojo! Mas eu não tinha mais ninguém. Não podia fazer mais nada! Continuei. Continuei sempre! Até agora! Estes últimos tempos têm sido horríveis. Para além da doença houve também uma data de complicações que enegreceram, ainda mais, o panorama. Estive sempre ao lado dele, confortando-o, dando-lhe esperança… até que percebi que não passava disso mesmo. Ele recebia mas não dava! Não havia reciprocidade! Que desilusão! Quem o ouvir falar, parece uma pessoa às direitas, que não existe ninguém melhor do que ele! Tem uma grande opinião de si próprio para quem vale tão pouco! (Outro sinal de mensagem. Manuela olha silenciosa para o telemóvel) Não pode ser! Deve estar a brincar! Só pode ser! (Os dedos mexem-se com rapidez sobre o teclado do telemóvel) Já está! Enviada! Agora é que vai ser! Depois desta mensagem Vai aparecer aí furioso, capaz de partir as paredes. Vou ter de ser forte. Pode ser também que ele venha cansado e, aí , tudo vai ser mais simples para os dois! Espero bem que sim. (Com voz determinada) Mas, seja como for, estou preparada para o embate. E agora mais do que nunca! (Olhou para si do pescoço aos pés.) Mas, antes, tenho de mudar de roupa. (Passa pela mesa, deixa o telemóvel lá e sai do palco. Desce o pano).


Cena II

(Nesta cena, continua o cenário, com a poltrona onde supostamente se senta o amante e para a qual ela se vira. O boneco tem a postura de um homem derrotado, inclinado para a frente, como quem já nada espera da vida.)

Manuela – Por que é que me fazes isto? É este o respeito que tens por mim? Não te dei os melhores da minha vida? O que é que queres mais? Sim, não negues…! Não te atrevas a ripostar sequer! Durante estes anos todos que passámos juntos, esperei por ti, pelos espaços vagos da tua vida. Amei-te nas horas passadas juntos, amei-te nas longas ausências da solidão do meu quarto. Amei-te em pensamento, recordando cada promessa incumprida e esperando a sua realização! Tu foste e vieste, como bem te apeteceu. Tu vais e vens relegando-me para o meu plano secundário mas essencial na tua vida tão cheia e tão vazia! Sim, ainda o negas? Atreves-te a negar? Então como explicas essa necessidade de mim? Por que estou na tua vida? Sim, porque só se procura aquilo que não se tem! E, a ti, falta-te o essencial! Vives na tua vida de faz de conta, mantendo as aparências para encobrir a tua cobardia! Não me venhas com tretas! Não te sintas mal! A culpa não é só tua tu não inventaste nada! Limitaste-te a perceber as regras da sociedade e a usá-las a teu favor! O que nunca imaginei é que o teu egoísmo fosse tão profundo! Tu és um poço de egoísmo! Não é só a tua família que estás a enganar mas também a ti próprio e a mim! Mas, o pior de tudo, é que o fazes em proveito próprio imaginando que todos se sentem tão felizes como tu! Acho, no fundo, que somos todos cobardes! Eu sei da existência deles e eles sabem da minha! Passei a fase da vergonha por amor, para passar à do embaraço! Sim, porque percebi que, apesar de tudo, eu fui a única que perdeu! Não me venhas com as tuas cobranças! Se não foste bom para mim? Se alguma vez me magoaste? Magoaste-me tanto com a tua presença como com a tua ausência! Talvez mais com a tua presença! Lembras-te daquela vez em que vieste ter comigo supostamente para ficar o dia inteiro? O que fizeste? Depois de termos feito amor, agarraste nas tuas coisas e puseste-te a andar, sob o falso pretexto do funeral de pessoas que nem conhecias? Nem mostraste o mínimo de pudor pela minha inteligência! Depois de tantos anos, nem com a verdade és capaz de me respeitar? Que espécie de homem és tu? Deixa-me ser eu a responder a esta pergunta! A pior espécie! Pertences àquela casta de homens que só olham para o seu próprio umbigo e nada mais lhes interessa! Não é bem assim?! Pois não. És pior! És daqueles que mede os outros pela sua própria medida! Ah, não compreendes?! Não compreendes ou não queres simplesmente compreender?! Ah, não compreendes! Eu explico! És uma pessoa que mede a felicidade dos outros pela sua! Se estás bem, os outros estão bem! Nem te dás ao trabalho de perceber se é mesmo assim! Basta que te sorriam, mesmo que o sorriso não seja verdadeiro, para que te sintas bem. Sabes? O mundo é maior do que o teu universo limitado! Fora dele, há todo um mundo cheio de oportunidades que podem e devem ser agarrados! E sabes uma coisa? Eu quero sair deste universo mesquinho, angustiante e constrangedor! Eu sou uma pessoa! Não um objecto de decoração que colocas em cima do móvel e aprecias quando passas diante dele! Quando te lembras dele! Eu sou uma pessoa, sim, e como tal preciso de uma vida! Não quero mais ser o remendo na vida de ninguém! Quero ter o meu lugar ao sol, como toda a gente! Quero viver como toda a gente! Quero viver o amor em plenitude e não ser só um objecto necessário nas mãos de alguém, quando ele entende ou necessita! Isto não é viver! Isto é uma farsa! E as farsas, quando repetidas, cansam! Esgotam uma pessoa! Sinto-me drenada! Sinto-me um boneco! Ajo, rio, choro em função da tua pessoa! Isto não é viver! Tenho de pensar em mim sob pena de morrer enquanto pessoa! Cheguei a um ponto que não sabia já quem era! Atingi um ponto que já não sei sequer quem sou! Sabes qual é a diferença entre nós? eu dei-me por amor e tu utilizaste esse amor para proveito próprio e mantiveste-te encostado confortavelmente a ele! Tu cresceste e eu diminuí! Fartei-me de viver a tua vida, os teus problemas… fartei-me de viver em função de ti! No amor tem de haver reciprocidade, meu amigo! Tu limitaste-te às tuas idas e voltas, sem que reparasses sequer em mim! Sim, houve uma altura em que deixei de existir aos teus olhos! Houve uma altura em que te esqueceste de mim! Só telefonavas para me empatar! Sim, para me empatar! Receavas que eu te deixasse, não era? Que te trocasse por outro? E sabes uma coisa? Teria sido melhor para os dois! Agora, estamos neste impasse! Tu queres continuar e eu estou farta! Acho que nem consigo olhar bem para ti já! E tu também te cansaste de fingir! Não aguentas mais a duplicidade da tua vida, pois não? Sê sincero ao menos uma vez na tua vida! Não comigo, que sei ler nas entrelinhas das tuas atitudes, palavras, tiques… cegou a hora da verdade! Custou, mas chegou! Agora, não tens outra solução do que dar a mão à palmatória e aceitares a realidade! Sim, a realidade porque o teatro que tu montaste já não engana ninguém! E tu és um péssimo actor! E o enredo repetitivo! Um belíssimo mentiroso e um mau actor! Que contradição! Mas explica-se facilmente! És um mentiroso cansado! Assumiste um papel demasiado difícil para ti! Não estiveste ao teu nível de mentiroso e falhaste rotundamente! E ainda bem que assim foi! É o melhor para todos! O teatro já ia longo e os intervalos escasseavam… faltou-te o fôlego! Mas também não há ser humano capaz de aguentar tanto tempo um papel tão cansativo! Portanto, a partir de agora, já não haverá mais idas e voltas. Diz-me adeus e acabou! Não digas se não quiseres ou não te apetecer. É-me profundamente indiferente! Mas não voltes! Sobretudo isso! Vê se não voltas! Acabou-se! Vai! Agora! Há uma vida nova à nossa espera para lá destas medonhas paredes! Adeus! O Quê? Estás a ameaçar-me que voltas? Desculpa mas é assim que eu encaro as tuas palavras! Não podes viver sem mim?! Não achas que essas frase já está muito gasta? Vai-te embora! Desaparece! (tapando os ouvidos) Não quero ouvir mais nada! Não quero saber de mais nada! A porta é ali. Já a conheces! (aponta para a esquerda do palco, na direcção da saída) Vê se a esqueces! Vê se me esqueces! (a personagem baixa lentamente o braço e olha para o público com orgulho. Apagam-se as luzes. Desce o pano!)


Cena III

(A personagem encontra-se no meio do palco, exactamente no mesmo sítio onde havia ficado quando desceu o pano! Lamento de Manuela, depois do amante sair!)

Manuela – (dobrando-se sobre si levantando-se logo de seguida) Meu Deus! Nem sei como consegui! Onde fui eu arranjar forças para terminar com ele? Nem acredito que consegui! Não foi nada fácil! (ri-se) Estou admirada com a minha coragem! Há muito que desejava fazê-lo mas, de alguma forma, ele acabava dando-me sempre a volta! Mas não está a ser fácil! Nunca é fácil quando o sentimento ainda nos mina as entranhas! Depois dele, resta-me a minha solidão. Mas mais vale esta solidão que a solidão a dois! Nunca vivi nada de tão terrível na minha vida! Nunca! E, no entanto, a par do alívio que sinto há uma parte de mim que estremece e tem medo do futuro! O que vai ser de mim agora? Quem me telefonará? Quem me baterá à porta? Quem vai querer saber de mim? Ele era a única pessoa que tinha! Mau ou bom, era o único! Meu Deus, acho que foram tantos anos que, agora, me vou ressentir da diferença! Como vou preencher este vazio? Em quem vou pensar agora? Contra quem direccionar a minha raiva? Quem pensará agora em mim? Ainda que fosse mau, que estivesse a anos-luz de ser a relação ideal, era algo que preenchia a minha vida pessoal. Seria mais fácil se o sentimento tivesse terminado! Seria? Não sei! Qual é o meu problema, então? (pensa por momentos) O meu isolamento! Esta relação isolou-me completamente das pessoas com quem antes me dava! Passaram a ignorar-me! Ora, também nunca gostei delas! Desde o começo da relação que as pessoas desconfiaram de tudo! Faziam-se de parvas e falavam por trás. Mas agora já não interessa! Era tão novinha quando tudo começou! Começara a trabalhar havia pouco numa empresa quando um dia ele entrou procurando pelo administrador da empresa. A secretária, uma senhora de uma certa idade e muito discreta, como aliás convém a uma boa secretária, conversou com ele prometendo arranjar-lhe uma reunião, que teria de ser breve, se estivesse disposto a esperar. Depois de uma olhadela rápida ao relógio, decidiu que ficaria e esperaria o tempo que fosse preciso! E se esperou! NO final do dia, quando toda a gente já se tinha ido embora, fiquei retida por um trabalho de última hora! Como estava há pouco na firma não poderia regatear muito os meus horários. Submeti-me. Foi então que ele levantou os olhos da revista que estava a ler e olhou-me demoradamente. Percebi que lhe preenchera as medidas. Era um homem muito bem parecido, charmoso e com um poder de sedução tremendo! Não mais me esqueceu. Voltou várias vezes, até que começámos a falar e a sair. Foi tudo muito rápido! Estava apaixonadíssimo! O que não passava despercebido a ninguém! Ao princípio ainda resisti, mas não por muito tempo. Apaixonei-me por ele. Um homem mais velho, uma figura que substituía a do pai que nunca conheci! Amava-me e protegia-me! Nunca me sentira tão feliz! Passado pouco tempo arranjámos um apartamento longe dos olhares curiosos que passaria a ser o nosso ninho de amor! Prometeu-me casamento assim que arranjasse uma oportunidade para pôr cobro àquele matrimónio que já não o satisfazia em nenhum aspecto. Passávamos todo o tempo livre juntos. Quando faltava a algum compromisso agendado com ele, era uma cena de ciúmes insuportável. Ai princípio ficava admiradíssima com a atitude dele e limitava-me a sossegá-lo dizendo que não havia ninguém na minha vida para além dele. Esta seria uma cena que se repetiria até à exaustão. Por fim, ele já tinha motivos para desconfiar. Não havia ninguém, embora me tivesse cruzado algumas vezes com homens interessados. Mas aquela relação absorvia-me completamente. Depois a fidelidade que não devia a um homem adúltero mantinha-me presa àquela relação, em parte por ele, em parte pelo meu carácter. Muita gente da firma me perguntava admirada como é que me fora enrolar com um homem casado! Partidas do destino, comentava eu. Tinham pena de mim. Gostavam de mim, porque percebiam que era boa pessoa, qualidade que não encontravam nele! Depois, os outros cansaram-se de esperar e afastaram-se. Como fui estúpida! Estava à espera da realização de uma promessa que mais não era do que uma miragem! Mas, este verão, encontrei uma pessoa maravilhosa, com a paciência de me mostrar as realidades da vida! Também ele se apaixonou por mim. Como não terminei logo a relação, pensou que não tomasse nunca essa decisão, pelo que resolveu afastar-se também deixando-me todo o tempo que precisasse para resolver a minha relação. Passaram dois anos. Nunca mais soube dele. Disse que esperaria por mim. Se for como este, o que francamente não me parece, já terá iniciado uma relação cansado de esperar. Espera aí! Ele deu-me o número de telefone! Nunca mais me lembrei disso. Que vergonha! (Pega no telemóvel e mexe nervosamente nas teclas à procura do número) Aqui está. Bem me parecia! Vou telefonar-lhe! Não posso ainda começar imediatamente uma outra relação, tenho de me recuperar desta. Não sei bem o que há para recuperar, mas julgo que preciso de estar um tempo sozinha para colocar a minha cabeça no lugar e perceber se estou preparada para enfrentar outra relação! Ele dar-me-á esse espaço. Mas poderemos sair. Ah, uma coisa muito importante – este é livre! Poderei, se tudo correr bem, começar a construir algo verdadeiro. Uma vida sólida. Desperdicei tanto tempo numa relação que, sei agora, nunca teve pernas para andar! Esteve condenada desde o início! Estou a ver o pessoal do escritório: vão fazer uma festa! Nunca gostaram dele. Não por ele, mas por ele me fazer acreditar nele. Perceberam logo que não prestava como homem e que me iria fazer infeliz. Nunca lhe perdoaram! Ainda me tentaram alertar para isso, mas era demasiado tarde. Já estava muito envolvida! Como fui parva! Por que é que nunca lhes dei ouvidos? Afinal, fizeram um pouco o papel da família ausente! Lembro-me da secretária do dono da empresa. Fora talvez a pessoa mais afectada pela inesperada relação. Percebera tudo quase desde o início e passara depois a confidente e conselheira. Também se cansou. Acho que há um tempo para tudo! E eu precisei de muito! Como foram pacientes comigo e respeitosos! Mesmo não concordando com o que fizera, sempre continuaram amigos. Mas a amizade está confinada às paredes da empresa. Nada mais! Eu não tinha tempo para mais, depois de começar aquela absorvente relação! Hum… que bem me sabe… aquela (saboreia a palavra) aquela… é tão bom sabê-la longe! Ele nem sequer pestanejou! Limitou-se a acatar a minha decisão e a sair. Foi uma vitória para a minha vida e para a dele. Não dava para continuar como até aqui! Sabia disso e ele também. (grita alegremente) Estou livre! Estou livre! Consegui! Ou talvez devesse dizer estamos! Sim, porque a outra namorada deixou de lhe ligar importância e resolveu dar mais atenção ao marido. Estão felizes! Ultrapassando as suas dificuldades mas felizes. Livres! Livre! Finalmente! Agora, sim, posso viver! Posso construir a vida que sempre sonhei. Nem que seja sozinha! Mas, como diz o ditado, mais sozinha que mal acompanhada! Acho que vou comprar um animal de estimação. Preciso de amar e de me sentir amada. Há muitos anos tive um e nunca me senti tão amada! Depois… depois, tenho o número que vou ligar e logo se verá. O que me interessa é que estou bem comigo. Ao princípio confesso que tive medo. Mas só porque estava a olhar na direcção errada. Agora sinto-me melhor. Não devemos lembrar-nos de quem não gosta de nós. Devemos lembrar-nos sempre de quem gosta. Porque só estes interessam. O resto faz parte da paisagem! Abriu-se uma nova etapa na minha vida! A minha alma arde de esperança! Vou agarrá-la! Vou conseguir! Hei de conseguir! Assim Deus me dê força! (Sai do palco. Fecha o pano).



FIM
publicado por fatimanascimento às 21:20
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