Esta é uma peça de teatro infantil que eu escrevi há muito tempo atrás, para os meus três filhos. A eles, juntou-se o nosso vizinho, Luís Silva. Inês era bebé. Lembram-se da peça, meninos? Lembram-se dos ensaios? Este blog é-vos dedicado.

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Domingo, 6 de Outubro de 2013

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publicado por fatimanascimento às 21:42
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Teatrinho de Natal

Para ser representado na Noite de Natal, sem palco, já que o público assistente faz o papel de figurante.

Acto I

Pastora Miriam, Pastor Jacob e Pastor David

Três pastores, Jacob, Miriam e David, encontram-se num cruzamento da cidade de Belém. Ela traz um cordeiro ao colo e eles uma ovelha aos ombros cada um.

Miriam - (Queixosa) Estou cansada e doem-me os pés. Já caminhamos há várias horas! Será que ainda falta muito para lá chegarmos?

Jacob - (Com ar cansado) Não sei. (Olhando para o céu) A estrela parou. O pior é que se vê imensa gente caminhando apressada na rua que nem repara em nós! A quem poderemos perguntar?

David - (Apontando) Olha, estão ali dois velhotes sentados à porta de casa. Será que eles poderão dar-nos essa informação?

(Dirigem-se os três aos dois velhotes que vêem na rua, e que mais não são que espectadores.)

Miriam - Boa noite, meus senhores. Nós viemos de muito longe, guiados por aquela estrela. (Aponta para a estrela com o braço esticado.) e encontramo-nos perdidos, nesta grande cidade cheia de gente. Nós procuramos um casebre situado fora da cidade, onde se encontra um Menino acabado de nascer.

David - Nós estávamos no campo, quando vimos uma luz muito brilhante e, nessa luz, apareceu-nos um Anjo. No início, ficámos muito assustados, mas ele, sossegou-nos e deu-nos uma grande notícia.

Jacob - (Entusiasmado.) O Anjo anunciou-nos o nascimento de um Menino e disse-nos que O encontraríamos fora da cidade, num estábulo, ladeado por duas pessoas e dois animais: um burro e um boi.

Miriam - (De olhos brilhantes.) Disse também que Ele está deitado numa manjedoura, enrolado em paninhos e que é muito especial. Ele é o Redentor, o Messias, há muito esperado.

David - Por favor, poderiam indicar-nos o caminho? (Dirige-se a um elemento do público que faz de um dos velhotes. Apontando para um caminho por onde seguia uma pequena multidão.) Por ali? Muito obrigado, meus senhores. Desejo-vos uma santa noite.

Jacob - Adeus e boa noite, meus senhores.

(Dirigem-se para a rua indicada pelos velhotes, por onde seguem também vários grupos.)


Acto II


(Diante do casebre que alberga a Sagrada Família. Lá dentro, encontram-se o Menino Jesus deitado na manjedoura, tal como o anjo anunciara, Sua Mãe, S. José e os animais. Maria encontra-se do lado esquerdo do palco, atrás dela o burro. No meio, o Menino e, do lado direito, S. José, com o boi atrás de si. Os três pastores chegam e aproximam-se.)

Jacob - O anjo tinha razão! Pela sua descrição, e pela posição da estrela, (olhando para océu) encontrámos o casebre que procurávamos.

David - Tudo leva a crer que sim. Foi mais fácil do que pensávamos.

Miriam - (Sussurrando.) Ena, tanta gente! Outros pastores devem ter ouvido a mensagem também a mensagem do Anjo.

(Os três aproximam-se timidamente para observar.)
David - (Colocando a sua ovelha no chão. Os outros imitam-no.) Lá está o Menino deitado na manjedoura, o casal e os dois animais de que falava o Anjo.

Jacob - Como este cenário tão pobre é, contudo, tão grandioso!

Miriam - Vou aproximar-me mais para ver o menino. (Aproximam-se os três.) Oh, que bebé tão lindo!

Jacob - Que paz ele transmite!

David - Senhores, nós somos humildes pastores, ouvimos as palavras do Anjo e viemos adorar o Menino. Eis aqui algumas lembranças para Ele. (Apontando os animais que haviam carragado.)
Jacob - Nós queremos, desta forma, prestar-lhe homenagem. Afinal, esta é a noite mais importante das nossas vidas!

Miriam - Sentimo-nos muito honrados e felizes por termos sido escolhidos por Deus para testemunharmos tal felicidade.

Três pastores (em uníssono) - Glória a Deus nas alturas que nos enviou o seu Filho muito amado.

Todos os pastores presentes (o público) - Amen!

(Todos se ajoelham silenciosamente, em sinal de reverência, orando a Deus, durante uns momentos. Depois, levantam-se e regressam ao campo. Saem de cena.)



Acto III

(Na cidade de Belém, numa rua, durante o caminho de regresso, cruzam-se com outros peregrinos pelo caminho. Ruídos de passos.)
Jacob, Miriam e David

Miriam - Vamos bater a todas as portas e anunciar que nasceu o Filho de Deus.

David - Boa ideia, vamos! (Gritam junto da primeira fila do público.)

Miriam - Como é possível que possam dormir numa noite como esta? Nasceu o Filho de Deus, há muito esperado.

Jacob - Acordem e abram as vossas portas e janelas. (Os rostos nas janelas e portas assim como os peregrinos, não são mais do que o público assistente para quem eles apontam.) Nasceu o Menino Jesus.

David - (No meio da rua, de braços abertos.) Vistam-se e saiam de casa. Vão ver o Filho de Deus que acaba de nascer e que veio para nos salvar. Encontrarão o Menino acompanhado por duas pessoas e dois animais num estábulo, junto da cidade.

Miriam - Corram e transmitam a boa nova a todos quanto encontrarem.

Jacob - Adorem o Menino que é a nossa luz. Sigam a estrela.

(Continuam a bater às portas imaginárias (sugestão dada pelo som) e a gritar até saírem de cena. Cai o pano.)


Fátima Nascimento
publicado por fatimanascimento às 21:32
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O sonho reencontrado

O sonho reencontrado

A personagem, de meia-idade, está sentada a uma mesa de cabeça baixa e as mãos esticadas em cima da mesma, com a palma da mão voltada para baixo. À sua frente, uma revista aberta, parece abandonada. A luz incide sobre ele, no início, muito fraca e vai aumentando, pouco a pouco, até parecer acordar o homem de um sonho. Levanta-se lentamente e dirige-se até à boca de cena.
Cena I

- Quem disse que não poderia realizar o meu sonho? Sim, quem disse? E se vos disser que a realização dos sonhos é possível? Eu realizei o meu. Não foi fácil. Ah, não foi, não! Lutei contra ventos e marés… mas consegui. Às vezes, não são os sonhos que são irrealizáveis, somos nós que desistimos deles, Muitas vezes, porque desconhecemos os passos que devemos dar, outras porque desistimos mesmo antes de tentar. Passei pelas duas situações. Se passei! Tive momentos de medo, momentos de ânimo, desânimo e desespero. Cheguei mesmo a pôr o meu sonho de lado. Mas não consegui. Algo foi mais forte mais forte do que eu, algo falou mais alto...Sabem como aquelas vozes que nós, homens, e agora também vocês, mulheres, se habituaram a ouvir na tropa. Não sei se sabem do que estou a falar… aquelas vozes de comando que nos fazem andar para a frente, mesmo quando temos vontade de recuar. Só que esta voz veio de dentro. Mas falou de tal modo alto e de forma tão razoável que me pôs a mexer. Comecei timidamente, mas, à medida que o tempo passava e descobria que o meu sonho tinha pernas para andar, mais entusiasmado ficava, e mais vontade tinha de andar. (Volta-se para o público e abre os braços deixando-os cair ao longo do corpo). Foi tudo tão extraordinário! Querem saber? Claro que querem. É para isso que aqui estão. Bem, por onde hei-de começar? Ah, sim. Que raio de pergunta. Que tal pelo início? Afinal, é por aí que começam todas as histórias. Bem, pronto, muitas das histórias. A minha, pelo menos, vai começar por aí. Nunca consegui tirar boas notas na escola. No entanto, não era burro. Simplesmente distraído. Sim, era verdade. Era dotado de uma distracção tal, que as disciplinas que requeriam mais concentração e raciocínio eram as mais prejudicadas. Nunca entendi o que se passou. O que parecia tão fácil para os meus companheiros, para mim era pior do que escalar uma montanha rochosa onde não existe qualquer orifício que ajude na subida. O que eu compreendia, parecia ser o inverso daquilo que os outros compreendiam. Estávamos na mesma sala de aula, todos ouvíamos a mesma explicação, no entanto, eu parecia que tinha um explicador particular. Quando trocava impressões sobre a matéria, no recreio com os colegas, abriam muito os olhos duvidando se teríamos ouvido a mesma explicação, tal era a diferença! Desisti cedo da disciplina. (Faz uma pausa e encara os espectadores. Ri-se, embaraçado. Leva a mão à cara, tapando a boca e parte do nariz). Peço desculpa. Já devem estar perdidos. Sim, não mintam. Afinal, não sabem exactamente a que disciplina me refiro. Ora bem, se não adivinharam já, vou dizer-lhes que se trata da Matemática. Não sei se algum de vós passou pelo mesmo calvário que eu. Passaram? Não? Sim? (olhando para o lado direito, frente e esquerdo) Bem, não interessa. Onde é que eu ia? Ah, bem, já sei… AA disciplina que se assemelhava, pelo menos para mim, ao Evereste na versão disciplinar, era a Matemática. Mas nem sempre fui mau aluno a esta disciplina. O caso é bem mais complicado. Na escola primária conseguia fazer as contas com alguma dificuldade, uma vez que me esquecia sempre dos que iam de trás. Vocês abem, falo daquelas contas simples de três mais sete igual a dez e vai um… se não me esquecesse sempre dele. Acho que esta constante distracção que originava as contas erradas, acabou por me impacientar e colocar na minha cabeça que jamais compreenderia aquela disciplina. A insegurança era de tal forma grande que acabei mesmo por ganhar uma certa aversão à disciplina. Como se ela tivesse alguma culpa da minha distracção! Mas é assim a vida! Que vamos fazer a isso? A vida é assim. Pelo menos, a minha vida foi assim. (ri-se) O que me valia eram as outras disciplinas que compensavam aquela. E eu era boa às outras. Se não fossem elas, a minha vida escolar ter-se-ia tornado um inferno! Língua Portuguesa, Geografia, História, Ciências… gostava imenso delas! No segundo ciclo, as minhas notas mudaram. Refiro-me à Matemática claro está. As notas tornaram-se melhores e tudo parecia encaminhado para que fizesse as pazes com ela. Foi um período excepcional da minha vida. Adorei estudar! Tirei boas notas a todas as disciplinas. Acabei por dispensar no segundo ano do ciclo. Para os que não sabem, equivale ao actual sexto ano. Ainda recordo esse tempo com saudade. Acho que todos nós conhecemos um período escolar mais ou menos bom ou mesmo extraordinário nas nossas vidas, não é?(olha o público como se esperasse uma reacção dele. Poderá eventualmente surgir o que levará à improvisação. Mas só durante um momento para depois de desligar e continuar o seu monólogo.) O meu foi esse. Depois, nos três anos seguintes, os anos foram um autêntico suplício. Mudei para uma escola particular e os colegas nada ou pouco tinham a ver comigo. Para começar, eram muito mais velhos do que eu. Alguns atingiam uma altura que eu jamais conseguiria igualar. Mas não eram simpáticos, Sofri, com alguns anos de antecedência daquilo que hoje se chama bullying escolar. Nada tinha a ver com eles. Por tal, era objecto de gozo. As minhas notas ressentiram-se. Desta vez, todas as disciplinas se ressentiram. Quando o ambiente melhorava eu lá tinha ânimo para pegar nos livros, quando piorava, queria era esquecer aquele lugar que tanto me fazia sofrer. A minha sorte, mas não total, era ser externo. Mas isso não aliviava o sofrimento. Tanto tinha boas como más notas. Nunca me destaquei pelas notas. O aproveitamento era fraco. Então, a Matemática, se já sabia pouco, passei a saber quase nada. Parecia que não entrava na cabeça. Cheguei a atirar 0,5 na escala de 0 a 100. Se não foi a mais baixa, foi uma das mais baixas da minha vida. Cheguei mesmo a chumbar no nono ano, precisamente aquele que mais gostei. Ainda não sei bem porquê. Chumbei com quatro a História, Inglês e não que outra disciplina. Chumbei a Matemática, Físico-Química e… Desenho. Mas este chumbo ao contrário do que pode parecer não foi um castigo. Custou-me. Oh. Se me custou! (Abana a cabeça pensativo e faz uma pausa.) Mas a turma que me esperava foi uma bênção para mim. Todos os rapazes eram da minha idade e partilhavam dos mesmos interesses que eu. Foram, em todos os aspectos, uma bênção para mim. As notas voltara a subir e até as da Matemática e consegui, após três anos de interregno, volta aos testes satisfatórios. Foi uma alegria. O meu sonho de criança encheu o meu peito. Sentia-me tentado a seguir uma carreira de ciências. Mas a minha professora de fixou-me os pés na terra. Aquelas positivas em nada me iriam ajudar nos anos que se avizinhavam. Percebi que tinha razão. Coloquei de lado o meu sonho e optei por uma carreira de letras. Acabei o secundário com boas notas. O 12º ano, levou-me a nova mudança de escola e as notas também se ressentiram. Mas consegui entrar na Universidade. Licenciei-me. Mas o meu sonho voltava incessantemente para me atormentar. Era como se algo me faltasse. A minha paixão pela astronomia, que vinha da minha infância, acompanhava-me. Comprava tudo o que se relacionasse com a disciplina. Tudo o que falasse de astros, planetas e outros mistérios, acabava sempre por me seduzir. E a informação, na altura, não era muita. Agora, é muito mais vasta. Está à distância de um clique. (Faz uma pausa e olha vivamente para o público) Não há uma publicidade qualquer com esta expressão? Acho que sim. `real. Sim, é verdadeira. Mas adiante… Onde é que eu estava? Ah, já sei. A astronomia. Um dia, estava a ar uma aula em parecia coma colega de ciências, mais concretamente de Matemática, quando me apercebi que estava a compreender toda a matéria. Tudo quanto me parecera inacessível, há muitos anos atrás, estava agora a compreender melhor ainda do que os miúdos. A minha atenção estava a ser recompensada! A mesma atenção que me faltou há muitos anos atrás. O meu entusiasmo aumentou gradualmente e procurei saber mais. Como o meu sonho continuava a perturbar-me, lembrei-me de recomeçar a estudar as disciplinas que me faltavam para completar a minha formação nas disciplinas científicas. Procurei um professor particular e inscrevi-me nos exames. (Aparte. Virando-se ligeiramente de lado e colocando a mão ao lado da boca, à laia de confidência) Haviam de ver a cara Ada senhora, já de uma certa idade, quando me viu, na inscrição e sabia que os meus filhos frequentavam a mesma escola e faziam os mesmos exames! (ri-se) Passei com boas notas. Não imaginam a minha alegria! (parou exultante) Consegui entrar na universidade para o curso que sempre me apaixonou. Acabei o curso e estou a pensar em seguir a via de investigação (foi aliás na investigação que sempre me destaquei pela positiva, está claro!) que sempre me apaixonou. (Volta-se de lado para o público e estende o braço esquerdo, indicando a mesa.) Estão a ver aquela revista em cima da mesa? Estava a ler o último artigo escrito por mim, publicado naquela revista científica. Não, não é só o resultado do meu trabalho. É o resultado do trabalho de uma equipa unida onde tenho a honra de estar integrado. (Volta-se para a frente) Ver-me no cimo de uma montanha ou no meio do deserto, vivendo só para a observação do espaço, tirando notas sobre o que vi e fazendo cálculos… Eu falei em cálculos? Só para perceberem como é fácil, agora, para mim, a Matemática. Pena não ter conseguido há mais tempo. Pena ter-me deixado levar, nem eu sei bem por quê ou por quem… mas devo tudo a mim próprio. Antes de poder culpar seja quem for, faço-o a mim próprio. Afinal, só consegui ganhar a coragem necessária ao fim destes anos todos! Mas mais vale agora que nunca. Digo-vos do fundo meu coração. Sinto-me realizado pessoal e profissionalmente. Não quer dizer que antes não estivesse realizado. Estava. Tenho consciência disso. Mas só em parte. Agora reúno todas as condições necessárias para me sentir verdadeiramente feliz. Eu falei muitas vezes deste meu caso aos alunos que embirravam, à semelhança de mim, quando tinha a sua idade, com a Matemática. Mas acho que, tal como eles, a vida profissional, para mim, estava a milhares de anos-luz! Desisti, quando deveria ter continuado a insistir. Mas há coisas que só compreendemos bem com a idade. Infelizmente, é assim! Ou deveria dizer, felizmente, porque, embora tarde, o meu sonho não morreu. Espero sinceramente que também não deixem morrer os vossos ou o vosso sonho. Falem do meu caso a todos aqueles que precisem de ser iluminados no sentido de não desistirem e, caso o tenham feito, não o deixeis morrer. Afinal, quando deixamos morrer o nosso sonho, morremos também com ele. Se o conseguiram realizar, os meus parabéns, foram mais fortes do que eu. Boa noite e bons sonhos, meus senhores e minhas senhoras.
(A luz vai diminuindo lentamente, escurecendo o palco e diluindo a figura da personagem, até esta desaparecer completamente. O pano fecha-se sobre a personagem, tapando-a.)

Fátima Nascimento
19/10/2010
publicado por fatimanascimento às 21:29
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A decisão

A decisão
Cena I
( As indicações cénicas poderão ser seguidas ou não. A actriz, que veste a pele da personagem, terá de mover-se de acordo com a sua forma de ser e agir. O texto não passa disso mesmo: um texto. O encenador e a actriz poderão, com total liberdade, realizar o seu trabalho! Podem e devem acrescentar, retirar, modificar peças ao cenário, enriquecendo-o!
Cenário: um janela ao fundo, iluminada, uma mesa ao meio do palco com uma cadeira atrás. Maria entra em cena queixando-se fisicamente de algumas dolências. Coloca a pasta em cima da mesa. Volta-se para o público.)

- Estou tão cansada! Não é vulgar! Não sei de onde vem! Nunca me senti assim! Nem mesmo quando estive doente! Vamos a ver (conta pelos dedos): não tenho trabalhado demasiado, não tenho preocupações no emprego, (pelo menos para já ou se os tenho, muito sinceramente, desconheço-os ou talvez não lhes dê importância para saber da sua existência. Não me interessam pura e simplesmente! A vida corre-me bem. É claro que me refiro à vida profissional. A vida pessoal resume-se à minha pessoa e não tenho conflitos comigo. Sinto-me bem com o que sou, como estou e quem sou. Portanto nada de anormal. Pelo menos, até aqui! Psicologicamente estou bem: serena e feliz tanto quanto possível. Por isso, a parte psicológica e psíquica estão equilibradas. Não quero dizer que não tenha tido vontade de matar alguém, uma ou outra vez na vida, mas isso foram acidentes de percurso e nem a raiva restou dos incidentes. Pessoas mesquinhas e más não merecem atenção, só desprezo! Por isso, não sei o que se passa! Nada me afecta. Nem mesmo o projecto que me foi oferecido, e que não deixa de ser um desafio, mas que não é nada que eu não consiga idealizar e concretizar no papel. Afinal, sou arquitecta e estou habituada a desafios desses! Depois, já passei muitas vezes por esta situação centenas de vezes nos meus quarenta e seis anos! E já provei o que tinha a provar! (intrigada) Então que raio se passa comigo? Também não pode ser solidão. A minha social, depois do trabalho, não é mais movimentada porque não quero. Ora, como não tenho saído muito, devo dizer que quase nem saio (já passei essa fase!) também não é cansaço por falta de sono! O cansaço também não se pode atribuir ao sono leve ou à insónia. Não tenho! Então o que se passa comigo? Também não estou triste porque não tenho motivos. Mais… deixa-me cá ver… Também não tenho problemas familiares que me desgastem… Decididamente não sei o que se passa comigo! Devo estar doida! Pode ser essa a explicação! Mas não, também não é por aí! Sinto-me bastante lúcida. (ri-se com descontracção) Realmente, não sei o que se passa…Deixa-me ver quais são os outros sintomas (credo já pareço um médico!) -(estremece) – detesto tudo quanto diga respeito à saúde, ou melhor, à falta dela e tudo quanto a rodeia: hospitais, centros de saúde… fazem-me muita impressão! Talvez por me fazerem perceber a fragilidade do ser humano! Ainda me lembro de, há uns anos atrás, entrar no IPO por causa de um sinal que aumentara de tamanho. Meu Deus, ainda recordo os olhos vazios, os corpos em cadeiras de espera como objectos à espera de arrumação definitiva. O único ânimo que ali senti era o dos profissionais de saúde que se assemelhavam a finos raios de luz insuficientes para iluminar convenientemente o espírito do sofrimento! Ui! Nem me quero lembrar disso! Estranho como me demorei tão pouco mas observei tanto! Fiquei impressionada, foi o que foi! Depois, a doença assusta-me. (ri-se) Acho que assusta qualquer pessoa sã! Mas nunca me preocupei muito com isso. Nem com as pequenas feridas dos joelhos me preocupava! Curava-se e estava a andar! Agora já não é bem assim! Com esta idade e com tantos avisos, já me preocupo mais, mas nunca o suficiente. Afinal, nunca respondi àquela carta que me pedia para estar em tal dia a tal hora num tal sítio para realizar uma mamografia! (Abre os lábios mostrando os dentes cerrados como que apanhada em falta) Isso já diz muito sobre mim! Bem, mas deixa-me lá ver quais são os outros sintomas para além do cansaço… dores de cabeça… é isso mesmo, dores de cabeça… que, escusado será dizer, também não sei de onde vêm! Têm-me incomodado muito! Mas nem sequer tomo paracetamol. A não ser que esteja no escritório. Aí tem de ser! São frequentes e isso, mais do que o cansaço, preocupa-me. Sobretudo quando são frequentes! Mais sintomas… (para para reflectir) Oh, é verdade! Estas desagradáveis nódoas negras que nunca mais desaparecem! Levam anos… mas acho que sempre fui assim! Mais sintomas… nada mais a acrescentar… julgo eu… deixa ver (coloca na mão no queixo enquanto reflecte) hum, também sou atreita a muitas infecções! Mas, também, com as alergias que tenho, nada de mais… Ah, é verdade os meus queridos gânglios inchados! De vez em quando, mesmo em pequena já acontecia, nada de grave… Mais… para além da obstipação intestinal que sempre me afectou, não vejo nada que possa alarmar-me. Disse alarmar-me? Acho que estou a começar a preocupar-me! (abana-se em sinal de que algo não está bem em si) Que se passa?! Nunca fui medricas e não é agora que vou sê-lo! É verdade devo ter demasiada roupa na cama, acontece-me suar muito! Tenho de tratar disso! Acordo de noite transpirada! Nada disto me parece ter algum sinal de gravidade! Mas, ainda assim, e porque a Custódia mo pediu, a ver se ligo para um centro médico e marco uma consulta! Se ela já não o fez… se calhar chego amanhã ao serviço e apresenta-me um papel com o dia, a hora e o nome da clínica mais próxima… Para além de uma grande secretária é uma excelente amiga, quase uma mãe… (desloca-se até à mesa onde está a mala. Retira uma agenda e procura um número) Deixa ver…. Já fui a esta clínica e gostei do médico que me atendeu. Como é que se chamava? José Filipe Guerreiro? Não! Barreiro? Carreiro? Não sei… a ver se a moça me ajuda. (pega no telemóvel e marca o número) Estou. Bom dia. Olhe o meu nome é Maria Fernandes e queria marcar uma consulta para o médico… não se é Barreiro… Sim, sim é esse mesmo! Quarta-feira à tarde? Às duas? Deixe-me, por favor, consultar a minha agenda. Pode ser. (escuta a voz do outro lado do telemóvel e abana a cabeça) Hum, hum… Combinado. Certo. Certo. Obrigado! Bem, já dei o primeiro passo! Outros se seguirão ou não! Bem vou tratar do jantar! (sai de cena)
Cena II
(Maria entra em casa. Regressa da consulta com exames realizados mas sem os resultados. )

- (aborrecida) Ufa! Que dia este! O dia de trabalho já é complicado mas se tivermos de acrescentar uma saída do trabalho numa empresa com um volume de trabalho enorme, uma pequena ausência, pode provocar o caos. Fui visitar umas obras que estão a meu cargo e ver como estavam a evoluir! E a agenda não estava cheia. Nem lá perto! Que confusão! Sobretudo ao telefone! Só em chamadas perdi imenso tempo! Não é habitual. Nem sequer eram urgentes. Julgo que há pessoas que gostam de viver penduradas no telefone ou no telemóvel! Bem, de qualquer maneira, já fui ao médico, já fiz os exames e agora tenho de esperar. O médico diz que, se não for nada de grave, os resultados se saberão rapidamente. Acho que estava a brincar comigo… ( riu-se) Ah, como é bom estar em casa depois de um dia de trabalho! Encontrar o sossego da minha casa, as minhas coisas… Que confusão a de hoje! E se juntar a isso as confusões que fiz… (ri-se) Não é habitual! E parecia empedernida! (animada) Tudo a ajudar!
(Deixa-se cair para cima da cadeira) Ainda me sinto fatigada. E a cabeça dói-me também. (arregaça as mangas e pára a olhar o braço, depois para o outro e depois para as pernas) Que raio vem a ser isto? Manchas vermelhas? Não tinha dado por elas! De onde raio veio isto? Que estranho! Já tinha sinais vermelhos herdados do meu pai, agora são as manchas? Ah, é verdade, e o sinal vermelho de nascença na perna esquerda que cresceu comigo? Boa, deve ser para completar o quadro. Vou telefonar ao médico. (Levanta-se e dirige-se à mala de onde retira o telemóvel) Será que ele reparou logo quando me examinou? Estou? O meu nome é Maria Fernandes e estive aí na clínica há três dias atrás e precisava de falar com o Doutor Guerreiro por causa de um problema de saúde. (escuta com atenção) Sim, sim, eu espero… (passam alguns instantes) Estou? Doutor Guerreiro? Sou Maria Fernandes a senhora que consultou há uns dias e que se queixava de cansaço… tenho más notícias… apareceram-me algumas manchas vermelhas na pele, as dores de cabeça intensificaram-se e hoje dói-me o estômago e não comi nada que me pudesse provocar este problema… Muito bem, doutor, vou aguardar pelos exames… (Desliga e atira com o telemóvel para dentro da mala)
(nervosa) E agora vou fazer um chá para ver se melhoro a minha disposição.
(sai de cena)

Cena III

(Maria entra na sala. Coloca-se junto da janela, sentada na cadeira. Maria agitando-se nervosamente; levanta-se, senta-se, olha através da janela.)

Maria- Esta espera que nunca mais acaba! Há uma semana que fiz todos os exames e ainda espero a resposta! Não sei o que mais me angustia se a tensão da espera se o desespero do diagnóstico final! Não sei o que fazer. Não sei o que pensar. Afogo-me em trabalho tentando esquecer o terrível momento que estou a passar, mas não consigo. Há sempre algum aspecto que me prende como o laço da corda que prende o animal fugitivo: o sorriso de uma pessoa bondosa, o riso de uma criança, o olhar apaixonado de dois amantes, a cumplicidade saudável entre colegas, o carinho maternal para com o filho pequeno… tudo quanto é bonito e bom me enche de uma inexplicável saudade. Sim, só o lado bem da vida me enche de emoção. Dos acontecimentos maus da vida, não tenho saudades nenhumas. E foram tantos! Não, destes não tenho saudades nenhumas. Nunca me passaria pela cabeça ter saudades de alguém que só me fez mal. Falo daqueles que só se aproximaram de mim, mostrando sentimentos que não nutriam, evidenciando atitudes certas que encobriam motivos errados! Seria irónico! Seria como ter saudade de uma epidemia de cólera ou de peste negra… Lá vem outra vez a doença à minha cabeça. Embora me tente distrair é sempre assim, tarde ou cedo o meu pensamento é desviado para este assunto. Não lhe consigo mesmo fugir! É como se a doença, antes de manifestar fisicamente a sua força, me tentasse derrubar pscicologicamente antes mesmo de se declarar. É como uma corrida onde um atleta mal-intencionado tentasse derrubar o colega arrasando-o psicologicamente antes da prova. Se é provável que me domine fisicamente, como posso não pensar nisso? Tento, esforço-me mesmo, para tal mas o melhor é aceitar tudo. Não combater a ideia, aceitá-la. É mais fácil. Entregar a Deus, como me diziam as irmãs do colégio religioso onde andei, entregar a nossa prova a Deus, e deixar nas Suas mãos a decisão, seja ela qual for. Mas é-me muito difícil. É-me difícil perceber que a vida que me pertence, pode estar a ser minada por uma secreta força chamada doença que, embora muitos tentem explicar cientificamente, me parece inexplicável. Bem, tenho de ter calma. Isto foi só um aviso. O médico só me preparou para o pior. Deu-me simpaticamente as duas perspectivas da questão – ou poderia ser nada de mal ou poderia ser algo bem pior. Teria de me preparar para o desse e viesse. Tentei seguir o seu conselho, para mais, não tendo ainda certezas. Mas nunca entendi esta minha maneira de ser. Custa-me mais a tensão do que a verdade, por mais terrível que ela seja. Sempre assim foi. Em pequena, detestava os dias seguintes aos exames, emocionalmente era terrível. Preferia conhecer a nota à tensão criada pela incerteza. Nunca gostei muito de surpresas. Não gosto ainda. Talvez porque elas foram quase sempre negativas. Sim, posso afirmar isso. As poucas novidades que me apanharam desprevenidas não foram boas: a súbita morte do meu avô, a inesperada morte da minha avó paterna… a maneira como em pequena era surpreendida por acusações quando tinha a certeza de estar inocente. Realmente, a vida não foi nada fácil para mim. Perdi tudo. Posso afirmar que tudo quanto construí foi derrubado por violentos abalos sísmicos da vida. Resto eu. O meu emprego onde realizo um trabalho que adoro. A minha única alegria, deslizar pelas ruas da cidade onde desenhos meus se transformaram como que por magia em prédios altos e elegantes. Não é a arquitectura que eu gostaria de criar é só a possível. Sempre defendi que tudo tem de estar em sintonia com o ambiente onde se integra. Que nada se constrói sem ter à volta espaços destinados às pessoas que habitam esses futuros nichos a que chamam andares. Acredito nos espaços livres. O homem pertence à natureza não a florestas de pedra. Mas ninguém me ouve. Já me prejudiquei por ter manifestado mais do que uma vez a minha opinião. Despedi-me. Mas, com o trabalho realizado, não me foi difícil encontrar outro mais aliciante ainda. O ambiente não é competitivo e todos trabalhamos para o mesmo fim com a mesma alegria. A minha vida privada não é tão gloriosa como a profissional. Talvez por isso nunca pense nela ou lhe dê muita importância. Tenho um trabalho que me preenche, não preciso de nada mais. Precisaria de uma boa notícia, isso sim. Uma boa notícia na minha vida privada é algo com que não conto há anos. Talvez seja agora. Pode ser que essa carta, por que tanto espero, traga notícias boas. É isso! Na vida nem tudo tem de ser maus nem tenho, contrariamente ao que me ensinou o meu pai, de estar preparada para o pior. Não tem de ser assim. Podemos pensar no melhor. Pelo menos, enquanto podemos! Mas depois a desilusão não será maior? Não creio. É igual. Ou pode ser até pior! Corremos o perigo de nos sentirmos traídos pela vida. Há que aceitar, não se pode fazer mais nada! Racionalmente está tudo tão certo. O pior, o pior está em lidar com as emoções. São tão fortes e algumas vezes mesmo incontroláveis. Tenho exemplos disso na minha vida. Recordo-me de uma moça que conheci faz já uns anos. Era uma rapariga engraçada, muito amiga de um rapaz que conheci ao mesmo tempo que ela. Foi num dia especial da minha vida. Durante uma festa íntima. Tudo correu bem até se aperceber que ele se fixara em mim, desde que entrei no seu campo de visão. A partir daqui, tudo se modificou. A sua atitude, em relação a mim, distanciou-se. Como se fosse a culpada do que acontecera! Se ao menos houvesse possibilidade de uma relação entre eu e o rapaz. Mas não! Nem mesmo assim ela pareceu acordar do seu sonho ciumento. Se ao menos desse uma oportunidade para fazer o balanço da situação… Como me disse uma amiga (a única) tinha ali mais uma inimiga para juntar ao exército. É tão estúpido! O pior é que a vida parece repetir-se. O mesmo já me acontecera há imensos anos atrás, era ainda muito jovem. Bem, aqui foi pior. Aqui existia um sentimento forte que foi posto à prova por uma rapariga apaixonada não correspondida. Sempre foi interessante a minha relação com o sexo oposto: ou me odiavam ou me amavam. Raramente ficavam indiferentes ou me ignoravam. Tenho algumas amizades masculinas, mas nada por aí além. Restam-me as da infância das quais perdi o rasto. Os meus amigos sempre me foram mais fiéis do que as amizades femininas. Ainda são. Sinto isso quando os nossos caminhos se cruzam casualmente. (pausa) Estou só. É uma realidade que aceitei já há muito. Não tenho ninguém. Também não preciso. São tão boas pessoas que vê-los uma vez por ano ou menos é uma alegria. Não é que não goste deles. Nada disso! Eles é que não gostam de mim. Que mal lhes fiz? Nenhum! Não gostam da minha mãe, logo não gostam de mim. Habituei-me à ideia. Convivo bem com ela. Mas não são todos más pessoas! O problema é que os venenosos alimentam más ideias sobre mim aos outros. Só não entende quem não quer. E há muitas pessoas na família que já entenderam isso, mas têm medo de se manifestar. Alimentam um doce carinho por mim, nada mais. Fazem-nos à cautela, de longe para que os outros não se apercebam. Alguns, pura e simplesmente divorciaram-se do resto da família. Se não podem conviver comigo também o não fazem com os outros que não se cansam de me perseguir com histórias escabrosas inventadas ou deturpadas. Estou bem como estou. Mais vale só do que mal acompanhada. No meu caso esse ditado é bem verdadeiro. Graças a Deus que não preciso de nada deles! Se precisasse, também nunca os procuraria. Assim, sou só eu e a doença ou a ausência dela! Sim, porque a hipotética doença pode ser algo bem inofensivo. A apreensão do médico é grande, a minha… não sei. Não vou dizer que não estou preocupada, mas sempre fui ensinada que esta vida era só uma passagem. O facto de não deixar descendência, talvez também ajude a compreender melhor esta ideia. À vida pouco ou nada me agarra. Já deixo obra realizada, da qual me orgulho. Não sei o que esperar mais da vida… Nada! Mas quem é que eu quero enganar? Se fosse assim tão fácil, porquê este nó na garganta? Porquê esta dor enraizada na incerteza? O que é melhor? Enfrentar a realidade ou viver a esperança? E aquela carta prometida que não chega. Se fosse grave, o médico teria telefonado, não? Ou as más notícias são sempre enviadas por carta? E se estivesse realmente doente? O que faria? Acho que não quero pensar nisso. Não por enquanto. Quero ser livre enquanto posso. (ouve-se o som metálico da abertura do correio na porta; a personagem sobressaltada levanta-se e apanha o envelope com relutância. Senta-se na cadeira. Fica por instantes a observar a carta como que hipnotizada.)
Não sei o que hei-de fazer! Estou ansiosa por conhecer o veredicto dos exames, mas tenho medo! (Tapa os olhos com as mãos, destapando-os seguidamente. Pega na carta) Engraçado! Nunca estive presa à vida! Sempre pensei que andaria por cá o tempo que Deus quisesse! Porquê este apego repentino? Porquê este medo que me destrói? E nem sequer conheço ainda o resultado! De que tenho medo afinal? A vida ensinou-me que o que quer que encontre do outro lado, não pode ser pior do que aquilo que já vivi! Aliás, pelas leituras realizadas, e a confiar nas linhas escritas, tudo parece bem melhor… Então de que tenho medo? De morrer, não é de certeza…(continua a agitar-se. Levanta a carta e, num gesto possante, rasga o envelope e retira a folha. Desdobra-a e lê apressadamente com os olhos. A folha cai-lhe no colo. Parece distraída) Oh, meu Deus! O pior aconteceu! (nervosamente) O pior dos diagnósticos revelou-se. A palavra maldita está escrita nesta folha imaculada como um forte borrão negro na minha triste vida! Não quero! Não pode ser! Maldita doença! E seis meses de vida! Seis meses de vida? (angustiada) Seis dias de vida! (balança-se)Tenho apenas quarenta e seis anos! E nunca pensei na verdadeiramente na morte! Para mim, não passava de um conceito filosófico-religioso que debatia entre simpatizantes. Meu Deus! Porquê agora? Porquê eu? (olhando para a folha) Seis mesess? Tão pouco! Tão inesperado! Tão aterrorizante! Tanto sentimento contraditório se cruza dentro de mim! Odeio a ideia! Como pode alguém ter apenas seis dias de vida? Como pode este terrível machado pesar sobre a minha pobre cabeça? O que aconteceu? O que fiz eu para merecer tal castigo? (levanta-se e avança até à boca de cena; olha para o público.) Não pode ser real! Tem de haver algum engano Só posso estar a viver um pesadelo (lívida) do qual vou acordar daqui a instantes e perceber com grande alívio que tudo não passou disso mesmo – um pesadelo. Mas não é, pois não? (ri-se amargamente, baloiçando-se para trás e para a frente agarrada ao seu corpo)Eu tenho os olhos bem abertos! Os mesmos que leram aquelas terríveis linhas! Os mesmos que estão agora a olhar para vós, ó paredes! Mas isto não pode ser real! Não pode ser real! Tem de haver algum engano! Nunca tive uma dor ou qualquer problema de saúde grave! Procurei seguir, na medida do possível, uma alimentação saudável… pratiquei exercício físico regularmente, nunca alimentei vício algum… Nunca fui dada a sentimentos mesquinhos ou de raiva. Como pode isto acontecer ao meu corpo? Não é que o tratasse como uma catedral, não é isso, mas tinha alguns cuidados! Dentro da minha negra vida que se resumiu a encontros com pessoas negras e nefastas, sempre encontrei uma saída o mais saudável possível, tanto física como espiritualmente! Foi a isto que se resumiu a minha paralisante vida social. A olhar a isto não incomoda nada morrer! Mas a esperança é ainda tão grande! A esperança de que a minha vida dê uma volta de cento e oitenta graus e possa ainda fazer a diferença! Quero ter a vida que sempre sonhei. Encontrar pessoas nas quais me possa fundir. Que pensem e sintam e vivam como eu! Estou farta de máscaras! De pessoas que se fazem passar por aquilo que não são! Quero encontrar alguém genuinamente honesto! Todos os dias tenho essa fé. Afinal, mudei de casa. Mudei de localidade! (Pausa.) Como pode o meu corpo lutar contra si próprio? Como pode o mesmo exército voltar-se contra si próprio dentro do campo de batalha e frente ao inimigo? Não tem lógica! Nada disto faz sentido! Pior ainda, o que vou fazer para conviver com esta realidade fria, nua e crua? O que posso fazer para combater esta peste que penetrou nos poros da minha pele e cercou a chama da minha vida? Não consigo conviver com a ideia de que tenho um problema e nada posso fazer… Estou prisioneira dentro do meu próprio corpo. Corpo este (aponta com os dois braços em forma de patas de caranguejo) que já não me obedece, não me pertence limitando-se a cumprir os negros desígnios misteriosos de um poder desconhecido que ameaça cortar o fio da minha vida com a sua afiada navalha a qualquer instante! Para quem me volto neste momento de angústia? Quem me pode valer? Toda a vida me ensinaram que há uma solução para cada problema! (ri-se) Eu própria era uma crente! Não há dúvida de que é uma forma optimista de educar para a realidade! Mas como é que ela se aplica aqui? Ensinam-nos tantas coisas na vida, mas quem é que nos prepara para momentos como este? A dignidade só não chega! Viver com dignidade estes últimos dias?! É tão brutalmente fria esta ideia! Não posso limitar-me a isto! A vida é muito mais! A vida não passa só pela aceitação! Há que viver o tempo que resta! Como? O que pode fazer em apenas seis meses de vida? Muito pouco ou quase nada! (pausa) O que foi feito e toda a esperança que, ainda há pouco, e apesar do medo, ainda me iluminava? (cai de joelhos e olha o público, angustiada) Mesmo sabendo que a vida é uma passagem, eu não quero morrer já! Não quero morrer assim! Quero viver pelo menos mais alguns anos nem que seja para realizar todos os sonhos que interiormente acalentei e guardei religiosamente no local mais seguro da minha memória. Nunca fiz planos! Talvez por saber que, na minha vida, eles eram inúteis! (ri-se) Sempre que planeava alguma aspecto da minha vida, ele saía sempre furado! Deixei de planear. Era como se houvesse um mafarrico atrás da minha orelha espiando os meus pensamentos e inutilizando-os imediatamente. Deixei de planear. Saltava da cama de manhã e fazia o que apenas deixara aflorar à memória o tempo suficiente para que nada nem ninguém descobrisse! Só assim conseguia concretizar alguma coisa. O que eu nunca pensei é que teria também de deixar de sonhar! (pausa) E agora, o que faço? (eleva as mãos em sinal de impotência) Nem um ano me dão! Nem seis meses! Nem mesmo um mês ou quinze dias! Apenas seis! (grita) Seis míseros meses! Engraçado, antes, seis meses pareciam-me durar uma eternidade! Agora, parecem-me uns fracos segundos! (tapa a cara com as mãos e balança-se agarrada si própria) Oh, não! Nunca pensei, na minha atribulada vida cheia de inimigos, vir a acabar assim! Com seis meses apenas, prestes a expirarem e a condenação aos tratamentos regulares e inúteis! (abre a mão em estrela acompanhada de outra onde eleva um dedo. Geme. Nova pausa) A vida decidiu por mim! Não tenho alternativa! E eu que nunca deixei que nada nem ninguém decidisse por mim! Nem mesmo os meus inimigos! Por falar de inimigos… Inimigos! Acabei de encontrar o último! Este que me devora gulosamente as entranhas até as deixar sem vida. Sempre soube que nenhum ser humano tem a vida nas mãos (olha para as mãos em forma de concha) Eu não sou excepção! Mas não consigo, nunca consegui viver sem liberdade! É na liberdade que me revejo! Não consigo viver com esta terrível sentença! Tenho de fazer qualquer coisa! (levanta-se tomada de uma esperança súbita) É isso! Não quero! Não posso! Não devo! Lembro-me das duas crianças que encontrei há muitos anos numa sala de hospital. Lembro-me das suas pequenas cabeças luzidias, despojadas dos seus compridos caracóis loiros e morenos, sujeitas ao espaço de um quarto onde jaziam os seus brinquedos favoritos, fiéis acompanhantes das horas dolorosas dos tratamentos e que ganhavam vida nos intervalos nas suas mãos inocentes. Lembro-me da sua resignação perante a trágica sorte que lhes coubera, mantendo-se aparentemente desligadas da sua sorte como se no mundo nada mais interessasse que os seus brinquedos. Recordo o sentimento de aturdimento, desespero e de culpa dos pais que nada compreendiam do que estava a suceder e haviam largado a profissão para acompanharem as filhas nos últimos momentos. Tenho ainda presente a imagem daquele extraordinário adolescente que mergulhava nos seus vídeo-jogos como se nada mais à sua volta interessasse. Lembro-me do rosto desesperado daquela mãe, chorando às escondidas, para regressar com o rosto calmo para junto do filho, tentando encobrir a sua dor aos perspicazes olhos do filho que alinhava tacitamente no jogo. Lembro-me da visita ao IPO onde fui um dia receber o resultado de um exame a um sinal que aumentara de volume. Aqueles rostos cinzentos, quase sem vida! Os olhos apagados! Esperando na prateleira a hora inevitável! O silêncio pesado daquela antecâmara de morte, só perturbado por murmúrios irreconhecíveis. Não consigo! Não posso! Não quero! Não devo! Se tenho apenas seis dias que eles vividos da melhor forma! Devo isso a essas crianças que sem querer, muito me ensinaram! Já sei o que vou fazer! Não sei se resultará… mas vale a pena tentar!(move-se agilmente na direcção da mês a e senta-se na cadeira. Pega na caneta e escreve febrilmente enquanto lê em voz alta) “Caro Professor Doutor Ernesto Simões, venho por este meio recusar os tratamentos que tem a amabilidade de recomendar, assumindo toda e qualquer consequência da minha séria decisão de recusar passar os meus últimos dias entre tratamentos e salas de hospitais. Vou gastar os restos dos meus dias realizando um sonho que me ficou por realizar. Com os melhores cumprimentos e agradecendo tudo quanto fez por mim, Maria Macedo.” O que posso fazer nestes seis meses? (grita) Eis aqui a minha resposta, ó doença maldita! Não vou passar os poucos dias que me sobram agarrada a ti, à tua existência dentro de mim! Não quero que a minha última recordação da vida esteja ligada a uma máquina numa despida sala de hospital. Não me vergarei à tua vontade! Vou fazer aquilo que sempre adiei indefinidamente à espera do momento certo que nunca chegou! Vou sair à rua! Vou misturar-me na multidão. Vou dedicar a minha vida aos outros! (levanta-se e dirige-se novamente à boca de cena; fala excitadamente) Não será esta a nossa última missão enquanto seres humanos? Dedicarmo-mos, ajudarmo-nos uns aos outros, enquanto por cá andamos neste difícil passo que é a vida? Nós damo-nos todos os dias num olhar, num gesto, numa atitude, na profissão… mas podemos fazer mais, muito mais! E há tanto para fazer! Nem sei por onde começar! Tenho de me concentrar! Não posso salvar o mundo em seis dias, mas posso melhorar os dias de alguém. Se tiver de morrer que seja entre boas causas. Que seja entre pessoas! Nunca sozinha, nunca numa cama de hospital! Só isso me vai realizar! Sempre me dei aos outros de muitas formas, falta-me uma causa mais directa! Falta-me um trabalho de campo onde as necessidades sejam maiores! Só assim poderei viver os meus últimos dias em paz e da forma que sempre desejei e nunca tive coragem de assumir! Vou-me vestir! (sai de cena)

Fim

18 de Março de 2010
publicado por fatimanascimento às 21:25
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Vai-e embora!

(O local onde se passam as cenas é uma sala mobilada com uma mesa, encostada ao cenário onde está pintada uma janela atrás da qual se divisam os prédios em frente. À esquerda do palco está uma poltrona, cujo espaldar se encontra de costas para o público, onde supostamente se encontra o indivíduo à qual são dirigidas as falas! Final de um relacionamento de vários anos de duração; depois de muitos problemas, peripécias… o fim! A amante não pode mais. Está farta, triste e revoltada!)

Cena I

Manuela – (de camisa de noite, olhando para o relógio) Não suporto mais isto! Estou farta! AAAhhhhh… (elevando os braços e fechando os punhos) Que raiva tenho de mim mesma! É sempre a mesma coisa! Tenho de ganhar coragem senão corro o risco de passar o resto do meu tempo à espera! Raios! Já ensaiei esta cena mais de mil vezes e, ainda assim, não consigo! Deixo-me sempre levar na conversa! Vejo-o entrar pela porta dentro, cheio de saudades, com todo aquele carinho que o caracteriza e acabo sempre por me render! Quando é que eu vou ganhar força para pôr cobro a tudo isto? Às vezes julgo que nunca vou conseguir! E, no entanto, eu quero muito! É mesmo uma ideia que me persegue há já alguns meses. Só que a coragem falta-me na hora H! Não pode ser! Não pode ser! Vai ser hoje! Tem de ser hoje! Vou sentá-lo naquele cadeirão e obrigá-lo a ouvir tudo quanto tenho a dizer! Ai, se vou! E não posso falhar! Estou tão cansada! A relação começou bem para terminar numa farsa! E se começou bem! Mas ele não cumpriu as promessas mais sagradas. Revelou ser mais um desses trapalhões que andam a atrapalhar a vida dos outros em benefício próprio! Tenho de pensar em mim! A vida está a passar por mim à velocidade de um comboio e eu limito-me a ficar sentada na estação a vê-lo passar! Como me desleixei com a minha vida! Deixei passar oportunidades que, talvez, não voltem! E como sou burra! Ainda este verão, poderia ter dado uma volta à minha vida! E o que fiz? Nada! Rigorosamente, nada! Não consegui tomar as rédeas da minha vida! Como o amor pode ser traiçoeiro! Gostamos de uma pessoa e esta só nos traz problemas com a sua indecisão cobarde! E quando encontro outra numas férias rendidas à solidão, o que faço? Nada! Volto para a mesma casa, à espera do mesmo homem que não arranja espaço na sua vida para mim! AAAHHHHHHH (grita enraivecida com as mãos e a cabeça levantada para o tecto) Que desperdício! (baixa os braços e olha o público) Houve uma altura em que ele preenchia a preenchia mas, agora, isso já não acontece. Algo morreu dentro de mim! Algo foi morrendo dentro de mim, pós estes anos todos! Tanta mentira e tanta decepção! (bate com fúria no peito) Tenho um buraco tão negro, tão grande e tão fundo dentro de mim que já não aguento! Sinto-me tão cansada de lutar que, por vezes, apetece-me abandonar tudo! Até esta cidade pequena onde habito (e onde ele habita) e que mais parece uma pequena aldeia cheia de mexericos e conversas banais de pessoas que parecem reger-se pelo código da moralidade! (ri-se cheia de escárnio) Às vezes, parecem mesmo ser donas desse código! Homens e mulheres pomposos, com o armário cheio de esqueletos, mas com uma imagem perfeita! Como em tudo, são essas que mais se atiram às outras pessoas para lhes apontar os defeitos e são aquelas que, bem vistas as coisas, se deveriam calar e deixar os outros tranquilos! Mas não, são as mais aguerridas! Lá diz o ditado “A melhor defesa é o ataque!” É precisamente o que se passa nesta cidade onde todos parecem o que não são! Bem, não todos! Mas quando as mexeriqueiras falam os outros todos calam-se com medo de discordar! Ou talvez saibam que não vale a pena dizer seja o que for. A mediocridade não evolui! Estas pessoas estão bem instaladas na vida encostadas a um exército de ajudantes familiares que os apoiam e defendem pelo que podem estar descansadas e reunir-se nos cafés a falarem da vida deste e daquela! É precisamente nisto que ele se tornou! Uma pessoa medíocre! Fala sem a intenção de realizar seja o que for, só mesmo para me calar! Vendo bem as coisas, ele sempre fez isto! Já passaram tantos anos! (Pausa. Toca a cara e o pescoço com ambas as mãos como se se acariciasse) Estou tão cansada das mentiras! Depois, há outro aspecto bastante importante mas que ele, depois deste tempo todo ainda não assimilou! Detesto a mentira e não consigo perdoar uma que seja! Por mais justificações que arranjem para ela! Para mim, uma mentira é como uma traição! E já enfrentei tantas dele. Querendo acreditar que pudesse mudar. Que pudesse finalmente lutar por nós! Mas não! A farsa continua! À vista dos outros mal nos conhecemos, quando estamos sós é um namorado apaixonadíssimo! Para mim não dá! Tantas desculpas para prolongar esta relação! Nem acredito que aguentei tanto! Uma relação tão promissora acaba de encontrar o seu fim! Tantas desculpas! Os filhos que estavam em plena adolescência e poderiam enveredar pelo caminho da droga! Que conhecia muitos jovens mergulhados nesse inferno! Acreditei! Afinal, também não gostaria de que tal acontecesse a um filho meu ou que acontecesse algo parecido aos garotos! Nunca conseguiria ser feliz sabendo que algo de mau tivesse acontecido aos miúdos! Que grande desculpa! Uma desculpa que durou quinze anos! Agora os filhos estão casados e a desculpa é outra! Já percebi, finalmente qual é o meu papel no meio desta história toda! E das duas uma: ou continuo esta farsa e acomodo-me à situação ou largo tudo e começo uma vida nova! Esta última hipótese fascina-me. Parece-me mesmo a única via para a minha felicidade! Tenho de conversar com ele dando-lhe a ideia de que está mesmo (sublinha com força esta palavra) tudo terminado! Que já não tem mais hipóteses. Que finalmente descobri ao pessoa que ele é e que me cansei! Nem mesmo fica a amizade. Não depois de uma relação como a nossa! Não há hipótese! (Faz uma pausa enquanto caminha de um lado para o outro) Já estou mesmo a ver a cena! Começa logo a desconfiar que apareceu alguém na minha vida e que estou com a cabeça no ar! Como se ele a tivesse assente em cima do pescoço! Parece um garoto crescido! Não quero isso! Quero um homem. Tivemos momentos bons, não nego! Como em qualquer relação. Mas a vida não é só feita de momentos bons é toda uma história que se constrói a dois! Depois, ele não estará muito longe da realidade! Conheci alguém este verão que me fez abrir os olhos e encarar a minha verdadeira situação! Tudo verdade! Tenho de admitir! Por muito que me custasse, tudo quanto me disse era verdade! E como adivinhou também, eu já o sabia só tinha medo de o admitir para mim mesma. Foram quinze anos desperdiçados. Comecei por amá-lo verdadeiramente ou nunca aceitaria esta situação durante tantos anos! Foi este sentimento que eu cria ser verdadeiro da parte dele que me manteve presa a estas paredes, sempre à espera! Sempre em segundo plano! Todos os encontros eram marcados em função da sua agenda profissional e familiar! Eu ficava sentada até tarde, muitas vezes, sem saber nada! Como é que resisti? Não… (Pausa. Abana a cabeça) Mas ganhei forças! Meu Deus, como ganhei forças! Já não pareço a mesma mulher! Encontrar as pessoas certas na nossa vida pode ser uma verdadeira bênção! Pelo menos para mim foi! (Pausa. Coloca as mãos ao lado da cabeça deixando-as descair lentamente) Mas continua a não ser fácil! Nunca conheci outra vida para além desta! Às vezes, um grande medo invade-me como se tivesse receio de caminhar sozinha na vida. E, no entanto, estive toda a minha vida sozinha! Sempre resolvi os meus problemas sozinha. Nunca pude recorrer a ele! Nunca recorri a ele! Nunca quis também! Sou demasiado orgulhosa para tal! E cansei-me! Espero que ele venha! (volta olhar para o relógio) Atrasado como sempre! Nem sei mesmo se vem! É sempre a mesma coisa! Espero muito que venha pois quero acabar hoje com tudo. E deixar bem claro que não há hipótese de reconciliação alguma! Que é mesmo definitivo! (Um som de mensagem no telemóvel. Corre para a mesa onde se encontra o telemóvel) Não quero crer! Deve ser ele! O cobardola deve estar a adivinhar chuva! Vai chegar atrasado! Está numa reunião de última hora! Não vai durar muito? Espero bem que não ou termino tudo pelo telemóvel. Mas não dá. Tem de ser frente a frente. Ele tem de sentir (faz força nesta palavra) que está mesmo terminado! Parece que tem um sexto sentido! Sempre que eu me chateava ele parecia adivinhar e entrava logo na defensiva! Que brutais discussões nós tínhamos! Para acabarmos invariavelmente na cama! É o que vai acontecer se ele desconfiar da minha intenção. Afinal, já há algum tempo que me dizia que não parecia a mesma. E sentia-se desconfortável com a situação! Poderia mesmo afirmar que tinha medo! Medo do que eu pudesse dizer ou fazer! Não se pode dizer que seja má pessoa, mas não é de confiança! Ainda me lembro daquela vez que descobri a namorada na internet! É engraçada a internet! É um mundo onde toda a gente se descobre facilmente! Para ser mais exacta, foi ela que me descobriu a mim! O que é engraçado, é que descobrimos o fantoche que ele é e ficámos amigas! É pena ela encontrar-se tão longe! De certeza que nos tornaríamos ainda mais próximas! Ehehehehe… (ri-se de forma triste) Se não fosse uma situação tão triste, até dava para rir! É o que eu digo, é daquelas pessoas que não pode ter muitos tempos livres, só faz asneiras! Mas esta foi só uma pequena razão entre muitas grandes razões que me levaram ao esgotamento! E ele nada fez! Ignorou-me completamente. Estava doente física e psicologicamente! Esgotada! E ele, só pensava na imagem! Que grande filho da mãe! Tinha um medo enorme de ser descoberto. Como é que se explicaria perante a família, os amigos e os colegas de trabalho? Metia nojo! Mas eu não tinha mais ninguém. Não podia fazer mais nada! Continuei. Continuei sempre! Até agora! Estes últimos tempos têm sido horríveis. Para além da doença houve também uma data de complicações que enegreceram, ainda mais, o panorama. Estive sempre ao lado dele, confortando-o, dando-lhe esperança… até que percebi que não passava disso mesmo. Ele recebia mas não dava! Não havia reciprocidade! Que desilusão! Quem o ouvir falar, parece uma pessoa às direitas, que não existe ninguém melhor do que ele! Tem uma grande opinião de si próprio para quem vale tão pouco! (Outro sinal de mensagem. Manuela olha silenciosa para o telemóvel) Não pode ser! Deve estar a brincar! Só pode ser! (Os dedos mexem-se com rapidez sobre o teclado do telemóvel) Já está! Enviada! Agora é que vai ser! Depois desta mensagem Vai aparecer aí furioso, capaz de partir as paredes. Vou ter de ser forte. Pode ser também que ele venha cansado e, aí , tudo vai ser mais simples para os dois! Espero bem que sim. (Com voz determinada) Mas, seja como for, estou preparada para o embate. E agora mais do que nunca! (Olhou para si do pescoço aos pés.) Mas, antes, tenho de mudar de roupa. (Passa pela mesa, deixa o telemóvel lá e sai do palco. Desce o pano).


Cena II

(Nesta cena, continua o cenário, com a poltrona onde supostamente se senta o amante e para a qual ela se vira. O boneco tem a postura de um homem derrotado, inclinado para a frente, como quem já nada espera da vida.)

Manuela – Por que é que me fazes isto? É este o respeito que tens por mim? Não te dei os melhores da minha vida? O que é que queres mais? Sim, não negues…! Não te atrevas a ripostar sequer! Durante estes anos todos que passámos juntos, esperei por ti, pelos espaços vagos da tua vida. Amei-te nas horas passadas juntos, amei-te nas longas ausências da solidão do meu quarto. Amei-te em pensamento, recordando cada promessa incumprida e esperando a sua realização! Tu foste e vieste, como bem te apeteceu. Tu vais e vens relegando-me para o meu plano secundário mas essencial na tua vida tão cheia e tão vazia! Sim, ainda o negas? Atreves-te a negar? Então como explicas essa necessidade de mim? Por que estou na tua vida? Sim, porque só se procura aquilo que não se tem! E, a ti, falta-te o essencial! Vives na tua vida de faz de conta, mantendo as aparências para encobrir a tua cobardia! Não me venhas com tretas! Não te sintas mal! A culpa não é só tua tu não inventaste nada! Limitaste-te a perceber as regras da sociedade e a usá-las a teu favor! O que nunca imaginei é que o teu egoísmo fosse tão profundo! Tu és um poço de egoísmo! Não é só a tua família que estás a enganar mas também a ti próprio e a mim! Mas, o pior de tudo, é que o fazes em proveito próprio imaginando que todos se sentem tão felizes como tu! Acho, no fundo, que somos todos cobardes! Eu sei da existência deles e eles sabem da minha! Passei a fase da vergonha por amor, para passar à do embaraço! Sim, porque percebi que, apesar de tudo, eu fui a única que perdeu! Não me venhas com as tuas cobranças! Se não foste bom para mim? Se alguma vez me magoaste? Magoaste-me tanto com a tua presença como com a tua ausência! Talvez mais com a tua presença! Lembras-te daquela vez em que vieste ter comigo supostamente para ficar o dia inteiro? O que fizeste? Depois de termos feito amor, agarraste nas tuas coisas e puseste-te a andar, sob o falso pretexto do funeral de pessoas que nem conhecias? Nem mostraste o mínimo de pudor pela minha inteligência! Depois de tantos anos, nem com a verdade és capaz de me respeitar? Que espécie de homem és tu? Deixa-me ser eu a responder a esta pergunta! A pior espécie! Pertences àquela casta de homens que só olham para o seu próprio umbigo e nada mais lhes interessa! Não é bem assim?! Pois não. És pior! És daqueles que mede os outros pela sua própria medida! Ah, não compreendes?! Não compreendes ou não queres simplesmente compreender?! Ah, não compreendes! Eu explico! És uma pessoa que mede a felicidade dos outros pela sua! Se estás bem, os outros estão bem! Nem te dás ao trabalho de perceber se é mesmo assim! Basta que te sorriam, mesmo que o sorriso não seja verdadeiro, para que te sintas bem. Sabes? O mundo é maior do que o teu universo limitado! Fora dele, há todo um mundo cheio de oportunidades que podem e devem ser agarrados! E sabes uma coisa? Eu quero sair deste universo mesquinho, angustiante e constrangedor! Eu sou uma pessoa! Não um objecto de decoração que colocas em cima do móvel e aprecias quando passas diante dele! Quando te lembras dele! Eu sou uma pessoa, sim, e como tal preciso de uma vida! Não quero mais ser o remendo na vida de ninguém! Quero ter o meu lugar ao sol, como toda a gente! Quero viver como toda a gente! Quero viver o amor em plenitude e não ser só um objecto necessário nas mãos de alguém, quando ele entende ou necessita! Isto não é viver! Isto é uma farsa! E as farsas, quando repetidas, cansam! Esgotam uma pessoa! Sinto-me drenada! Sinto-me um boneco! Ajo, rio, choro em função da tua pessoa! Isto não é viver! Tenho de pensar em mim sob pena de morrer enquanto pessoa! Cheguei a um ponto que não sabia já quem era! Atingi um ponto que já não sei sequer quem sou! Sabes qual é a diferença entre nós? eu dei-me por amor e tu utilizaste esse amor para proveito próprio e mantiveste-te encostado confortavelmente a ele! Tu cresceste e eu diminuí! Fartei-me de viver a tua vida, os teus problemas… fartei-me de viver em função de ti! No amor tem de haver reciprocidade, meu amigo! Tu limitaste-te às tuas idas e voltas, sem que reparasses sequer em mim! Sim, houve uma altura em que deixei de existir aos teus olhos! Houve uma altura em que te esqueceste de mim! Só telefonavas para me empatar! Sim, para me empatar! Receavas que eu te deixasse, não era? Que te trocasse por outro? E sabes uma coisa? Teria sido melhor para os dois! Agora, estamos neste impasse! Tu queres continuar e eu estou farta! Acho que nem consigo olhar bem para ti já! E tu também te cansaste de fingir! Não aguentas mais a duplicidade da tua vida, pois não? Sê sincero ao menos uma vez na tua vida! Não comigo, que sei ler nas entrelinhas das tuas atitudes, palavras, tiques… cegou a hora da verdade! Custou, mas chegou! Agora, não tens outra solução do que dar a mão à palmatória e aceitares a realidade! Sim, a realidade porque o teatro que tu montaste já não engana ninguém! E tu és um péssimo actor! E o enredo repetitivo! Um belíssimo mentiroso e um mau actor! Que contradição! Mas explica-se facilmente! És um mentiroso cansado! Assumiste um papel demasiado difícil para ti! Não estiveste ao teu nível de mentiroso e falhaste rotundamente! E ainda bem que assim foi! É o melhor para todos! O teatro já ia longo e os intervalos escasseavam… faltou-te o fôlego! Mas também não há ser humano capaz de aguentar tanto tempo um papel tão cansativo! Portanto, a partir de agora, já não haverá mais idas e voltas. Diz-me adeus e acabou! Não digas se não quiseres ou não te apetecer. É-me profundamente indiferente! Mas não voltes! Sobretudo isso! Vê se não voltas! Acabou-se! Vai! Agora! Há uma vida nova à nossa espera para lá destas medonhas paredes! Adeus! O Quê? Estás a ameaçar-me que voltas? Desculpa mas é assim que eu encaro as tuas palavras! Não podes viver sem mim?! Não achas que essas frase já está muito gasta? Vai-te embora! Desaparece! (tapando os ouvidos) Não quero ouvir mais nada! Não quero saber de mais nada! A porta é ali. Já a conheces! (aponta para a esquerda do palco, na direcção da saída) Vê se a esqueces! Vê se me esqueces! (a personagem baixa lentamente o braço e olha para o público com orgulho. Apagam-se as luzes. Desce o pano!)


Cena III

(A personagem encontra-se no meio do palco, exactamente no mesmo sítio onde havia ficado quando desceu o pano! Lamento de Manuela, depois do amante sair!)

Manuela – (dobrando-se sobre si levantando-se logo de seguida) Meu Deus! Nem sei como consegui! Onde fui eu arranjar forças para terminar com ele? Nem acredito que consegui! Não foi nada fácil! (ri-se) Estou admirada com a minha coragem! Há muito que desejava fazê-lo mas, de alguma forma, ele acabava dando-me sempre a volta! Mas não está a ser fácil! Nunca é fácil quando o sentimento ainda nos mina as entranhas! Depois dele, resta-me a minha solidão. Mas mais vale esta solidão que a solidão a dois! Nunca vivi nada de tão terrível na minha vida! Nunca! E, no entanto, a par do alívio que sinto há uma parte de mim que estremece e tem medo do futuro! O que vai ser de mim agora? Quem me telefonará? Quem me baterá à porta? Quem vai querer saber de mim? Ele era a única pessoa que tinha! Mau ou bom, era o único! Meu Deus, acho que foram tantos anos que, agora, me vou ressentir da diferença! Como vou preencher este vazio? Em quem vou pensar agora? Contra quem direccionar a minha raiva? Quem pensará agora em mim? Ainda que fosse mau, que estivesse a anos-luz de ser a relação ideal, era algo que preenchia a minha vida pessoal. Seria mais fácil se o sentimento tivesse terminado! Seria? Não sei! Qual é o meu problema, então? (pensa por momentos) O meu isolamento! Esta relação isolou-me completamente das pessoas com quem antes me dava! Passaram a ignorar-me! Ora, também nunca gostei delas! Desde o começo da relação que as pessoas desconfiaram de tudo! Faziam-se de parvas e falavam por trás. Mas agora já não interessa! Era tão novinha quando tudo começou! Começara a trabalhar havia pouco numa empresa quando um dia ele entrou procurando pelo administrador da empresa. A secretária, uma senhora de uma certa idade e muito discreta, como aliás convém a uma boa secretária, conversou com ele prometendo arranjar-lhe uma reunião, que teria de ser breve, se estivesse disposto a esperar. Depois de uma olhadela rápida ao relógio, decidiu que ficaria e esperaria o tempo que fosse preciso! E se esperou! NO final do dia, quando toda a gente já se tinha ido embora, fiquei retida por um trabalho de última hora! Como estava há pouco na firma não poderia regatear muito os meus horários. Submeti-me. Foi então que ele levantou os olhos da revista que estava a ler e olhou-me demoradamente. Percebi que lhe preenchera as medidas. Era um homem muito bem parecido, charmoso e com um poder de sedução tremendo! Não mais me esqueceu. Voltou várias vezes, até que começámos a falar e a sair. Foi tudo muito rápido! Estava apaixonadíssimo! O que não passava despercebido a ninguém! Ao princípio ainda resisti, mas não por muito tempo. Apaixonei-me por ele. Um homem mais velho, uma figura que substituía a do pai que nunca conheci! Amava-me e protegia-me! Nunca me sentira tão feliz! Passado pouco tempo arranjámos um apartamento longe dos olhares curiosos que passaria a ser o nosso ninho de amor! Prometeu-me casamento assim que arranjasse uma oportunidade para pôr cobro àquele matrimónio que já não o satisfazia em nenhum aspecto. Passávamos todo o tempo livre juntos. Quando faltava a algum compromisso agendado com ele, era uma cena de ciúmes insuportável. Ai princípio ficava admiradíssima com a atitude dele e limitava-me a sossegá-lo dizendo que não havia ninguém na minha vida para além dele. Esta seria uma cena que se repetiria até à exaustão. Por fim, ele já tinha motivos para desconfiar. Não havia ninguém, embora me tivesse cruzado algumas vezes com homens interessados. Mas aquela relação absorvia-me completamente. Depois a fidelidade que não devia a um homem adúltero mantinha-me presa àquela relação, em parte por ele, em parte pelo meu carácter. Muita gente da firma me perguntava admirada como é que me fora enrolar com um homem casado! Partidas do destino, comentava eu. Tinham pena de mim. Gostavam de mim, porque percebiam que era boa pessoa, qualidade que não encontravam nele! Depois, os outros cansaram-se de esperar e afastaram-se. Como fui estúpida! Estava à espera da realização de uma promessa que mais não era do que uma miragem! Mas, este verão, encontrei uma pessoa maravilhosa, com a paciência de me mostrar as realidades da vida! Também ele se apaixonou por mim. Como não terminei logo a relação, pensou que não tomasse nunca essa decisão, pelo que resolveu afastar-se também deixando-me todo o tempo que precisasse para resolver a minha relação. Passaram dois anos. Nunca mais soube dele. Disse que esperaria por mim. Se for como este, o que francamente não me parece, já terá iniciado uma relação cansado de esperar. Espera aí! Ele deu-me o número de telefone! Nunca mais me lembrei disso. Que vergonha! (Pega no telemóvel e mexe nervosamente nas teclas à procura do número) Aqui está. Bem me parecia! Vou telefonar-lhe! Não posso ainda começar imediatamente uma outra relação, tenho de me recuperar desta. Não sei bem o que há para recuperar, mas julgo que preciso de estar um tempo sozinha para colocar a minha cabeça no lugar e perceber se estou preparada para enfrentar outra relação! Ele dar-me-á esse espaço. Mas poderemos sair. Ah, uma coisa muito importante – este é livre! Poderei, se tudo correr bem, começar a construir algo verdadeiro. Uma vida sólida. Desperdicei tanto tempo numa relação que, sei agora, nunca teve pernas para andar! Esteve condenada desde o início! Estou a ver o pessoal do escritório: vão fazer uma festa! Nunca gostaram dele. Não por ele, mas por ele me fazer acreditar nele. Perceberam logo que não prestava como homem e que me iria fazer infeliz. Nunca lhe perdoaram! Ainda me tentaram alertar para isso, mas era demasiado tarde. Já estava muito envolvida! Como fui parva! Por que é que nunca lhes dei ouvidos? Afinal, fizeram um pouco o papel da família ausente! Lembro-me da secretária do dono da empresa. Fora talvez a pessoa mais afectada pela inesperada relação. Percebera tudo quase desde o início e passara depois a confidente e conselheira. Também se cansou. Acho que há um tempo para tudo! E eu precisei de muito! Como foram pacientes comigo e respeitosos! Mesmo não concordando com o que fizera, sempre continuaram amigos. Mas a amizade está confinada às paredes da empresa. Nada mais! Eu não tinha tempo para mais, depois de começar aquela absorvente relação! Hum… que bem me sabe… aquela (saboreia a palavra) aquela… é tão bom sabê-la longe! Ele nem sequer pestanejou! Limitou-se a acatar a minha decisão e a sair. Foi uma vitória para a minha vida e para a dele. Não dava para continuar como até aqui! Sabia disso e ele também. (grita alegremente) Estou livre! Estou livre! Consegui! Ou talvez devesse dizer estamos! Sim, porque a outra namorada deixou de lhe ligar importância e resolveu dar mais atenção ao marido. Estão felizes! Ultrapassando as suas dificuldades mas felizes. Livres! Livre! Finalmente! Agora, sim, posso viver! Posso construir a vida que sempre sonhei. Nem que seja sozinha! Mas, como diz o ditado, mais sozinha que mal acompanhada! Acho que vou comprar um animal de estimação. Preciso de amar e de me sentir amada. Há muitos anos tive um e nunca me senti tão amada! Depois… depois, tenho o número que vou ligar e logo se verá. O que me interessa é que estou bem comigo. Ao princípio confesso que tive medo. Mas só porque estava a olhar na direcção errada. Agora sinto-me melhor. Não devemos lembrar-nos de quem não gosta de nós. Devemos lembrar-nos sempre de quem gosta. Porque só estes interessam. O resto faz parte da paisagem! Abriu-se uma nova etapa na minha vida! A minha alma arde de esperança! Vou agarrá-la! Vou conseguir! Hei de conseguir! Assim Deus me dê força! (Sai do palco. Fecha o pano).



FIM
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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

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Não, não se enganaram. É o mesmo blog. Só tem um template novo. E um contador novo, uma vez que, com a mudança, perdi o outro. O Teatrinho de Natal encontra-se ao fundo desta página.


Caminho mais fácil de acesso: google - teatrinho - ...

 

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Todos os meus leitores estão autorizados a fazer uma impressão dos meus textos (todos eles) podendo ainda os mesmos ser usados para fins próprios ou outros, desde que eles não envolvam projectos comerciais e desde que a autoria esteja sempre impressa neles.

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Domingo, 4 de Novembro de 2007

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